quarta-feira, maio 05, 2010

Diario da Dinamarca #1

Diário da Dinamarca
(Parte1)

Hoje, pela primeira vez, acordei cedo e não voltei a dormir, ao contrario, pus uma bermuda e fui correr. Aproveitei para levar o lixo acumulado pra fora e achar uma lixeira adequada foi apenas parte de um dos meus problemas de desadequacao. O outro, bem mais serio, eh localizar no supermercado o que procuro. Assim acabei comprando molho de tomate quando queria suco de tomate e requeijão quando queria manteiga. Tudo eh escrito nessa língua pouco familiar, quase nada em inglês, embora todo mundo domine essa língua e ate parece gostar de usa-la, talvez gostem de sentir-se ingleses, talvez tenham algum senso de inferioridade... não saberia dizer com certeza mas acho que, mesmo com toda a riqueza, ha um certo espírito periférico assombrando o pais.

Hoje sonhei que dominava a arte da telepatia que consiste em visualizar as imagens do outro e, desapontado, me sentia ainda incomunicavel pois não era capaz de decifrar os códigos visuais dos dinamarqueses mesmo que entrando em suas mentes.

Voltando a corrida, o ar frio estava cortante e não aliviava a pele, então entendi porque todos usam roupas colantes, especialmente projetadas para corrida. O pior eh que não da pra suar e aquece-se muito pouco. Algumas quadras depois eu estava com frio e esbaforido. Desisti e fui comprar cigarros, meu melhor e único amigo na solidão pois nem a musica esta presente: esqueci meu ipod em casa.
Esqueci também luvas e um belo casaco de frio que havia comprado em Londres no ano passado. Eis uma prova inquestionável do meu otimismo – ou de uma estupidez incorrigivel: achei que a primavera dinamarquesa era mais quentinha.

Uma bicicleta seria bem vinda pois eh o principal meio de transporte dessa cidade cheia de pequenas regras de convivência no transito. Sinal fechado vale para todos, inclusive pedestres, sob pena de multa. Isto eh, se houver algum policial por perto. Nesse quatro últimos dias vi policia apenas duas vezes. No domingo eles somem e algumas delegacias simplesmente fecham.
Os ciclistas levantam a mão num gesto que lembra os marcianos na ficção cientifica ao falarem “levem-me ao seu líder”. Levanta-se o braço de modo que a palma da mão aberta fica a altura da cabeça. Isso quer dizer “vou parar”. Apontar para os lados discretamente com o indicador significa que vai dobrar a esquerda ou direita.
Por falta do meu conhecimento disso uma velhinha bateu na traseira da bicicleta publica que eu estava usando no domingo.

Outra solução, muito comum entre os nativos, eh pegar uma bike sem cadeado ou corente e levar. Diz-se que “achei-a”. E tudo bem. Ainda não me sinto ambientado o suficiente para fazer isso mas o farei certamente numa noite fria voltando de algum club.

Estou num quarto alugado na zona oeste da cidade, o que pouco significa pois tudo eh bem perto e da para se virar a pe mesmo.

Na casa mora uma dinamarquesa loira e simpática chamada Laura. Eventualmente seu namorado aparece mas a maior parte do tempo estou sozinho, ouvindo o ranger fantasmagórico das madeiras do assoalho de algum vizinho. A casa eh pequena, tem dois quartos, uma sala, uma cozinha e um banheiro minúsculo. Do lado de fora, um belo jardim com parque e quadra de futebol mas com o frio que faz so da para freqüenta-lo munido de cha quente ou um drink forte e destilado.

Usar um banheiro eh uma aventura dolorosa a começar do frio polar do assento. Todo o corpo reage quando a bunda senta naquele lugar gélido. Trava-se tudo! Eh preciso esperar que o corpo aqueça o assento para que o metabolismo siga seu fluxo normal. Tomar banho eh outra ginastica pois o boxe apertado tem uma cortina que cola no corpo. No final, pega-se um pequeno rodo para enxugar o piso. Muito trabalho por um banho mas, na falta do que fazer, chego a tomar dois banhos por dia, mais por prazer do que necessidade já que simplesmente não transpiro.

Já tomei banhos de diversa natureza: banho de lama ou de tinta em Olinda durante o carnaval; deliciosos ou inconvenientes banhos de chuva nas ruas por onde andei; lembro de um banho quase mágico num igarapé, sob olhares ávidos de índias ianomâmis impressionadas com minha glande exposta – um tabu para elas. Ficar embaixo do chuveiro, sentir a água escorrer eh o momento de solidão, reflexão, meditacao e prazer. Aqui, eh como um abraço quente de um ser imaginário. Fico um tempão sentindo a água morna, pelando, sobre o corpo.

Comer, definitivamente, tem sido meu problema diário! Nos dois primeiros dias comi em kebabs mas apenas a carne e a salada. Fico paranóico de faltar vitaminas então comprei frutas e tomates e como-os enquanto trabalho em casa. Ontem tentei um sanduíche de queijo e presunto no almoço mas estava tão oleoso que passei mal durante boa parte do dia. Pra falar a verdade entrei naquele lugar- uma livraria especializada em literatura espanica – apenas para jogar conversa fora com os proprietários e devo voltar la todos os dias ao para conversar um pouco sobre qualquer coisa. Na noite, acompanhado por um amigo franco brasileiro que mora aqui ha quatro anos, consegui minha primeira boa refeição: uma sopa quentinha que eu não sabia se abraçava ou devorava.

Bebe-se muita cerveja por aqui – coisa que já esta fazendo-se presente na definição do meu ventre - e eu sempre tenho um bom uísque no quarto que me aquece e me distrai das agruras das noites frias. Sinto falta de abraço, não num sentido sexual – se eh que eh possível haver algo não sexual – mas pelo simples contato humano que nos da a certeza que não estamos sos. Beijinhos na bochechas das meninas também não eh uma atitude comum e faz-me falta sentir o perfume e o cheiro natural das nucas mulheres que são o estimulo da vida.

Sempre ando muito quando acordo, antes de começar o trabalho em casa e, incrivelmente, os canais da cidade – são quatro aqui perto de casa – me fazem lembrar o cruzamento da Conde da Boa Vista com a Rua da Aurora, numa escala maior, mais rica e mais elegante.
A cultura do design eh muito forte e nada eh tosco ou simples, tudo eh pensado cheio de “pra que isso”, uma forma de encher o tédio dessas pessoas de vida tão regrada.

Fui em Chritiania, a Olinda local, turbinada por hippies profissionais, despojadas do espírito incial de comunidade squater. Hoje eh apenas uma feirinha de bugigangas onde, eventualmente, compra-se maconha e haxixe e diverte-se os turistas. Entrando mais fundo descobre-se as casa dos antigos moradores, os pioneiros, reclusos e desconfiados.

As roupas nas lojinhas do centro de Copenhagen são simples e elegantes embora muito caras. Decidi que hoje vou na H&M comprar luvas e meia-calcas para tornar minhas saídas menos desconfortáveis e amenizar esse frio terrível.

Com poucos dias na cidade já prevejo poucas relações humanas duradouras. A frieza da cultura local impede isso e pela primeira vez desejo encontrar brasileiros, latinos, gente do leste que tenham esse riso fácil e espontâneo tão raro por aqui. Ha uma barreira clara entre homens e mulheres e o discurso feminista levou esse povo a um conservadorismo tacanho ao invés de idéias de liberdade e igualitarismo. Talvez o contato com os músicos me leve a mudar o ponto de vista. Assim espero e torço com muita vontade.

(De qualquer modo, apesar da aparencia saudável, cabelos tratados e pele de porcelana, não trocaria um dúzia de loiras locais por uma morena do Cabo, de Olinda, Casa Amarela e adjacências. Falta-lhes aquele charme e tempero, a brabeza de fêmea alternada por extrema docura, o riso sedutor que tanto nos envolve como tambem aos gringos que tiveram a sorte de conhece-las. Já os homens... Bom, homens são bobos em qualquer parte do mundo!)

No bairro, os árabes – uso esse termo genérico pois não consigo distinguir as etnias – estão em grande numero e interagem bastante mas soh entre eles. A língua eh mais complicada e áspera, boa de se ouvir pois parece um canto de Raí ou coisa semelhante.

Gosto de vê-los – os imigrantes de um modo geral – e eh o que me faz mais falta no Recife. Tanta gente diferente, tantas culturas, comidas e roupas surpreendentes, cheiros novos e exóticos, sons de uma humanidade vasta e perdida.